Mutum-de-alagoas volta à terra natal e será apresentado à população nesta sexta-feira (22); ave vai se tornar símbolo de Alagoas

Ele voltou! E será apresentado aos seus conterrâneos na manhã desta sexta-feira (22), na inauguração do Centro de Educação Ambiental Pedro Mário Nardelli, localizado na Usina Utinga, em Rio Largo, a partir das 10h. O Mutum-de-alagoas, um dos 11 animais em extinção na natureza no Brasil, depois de 42 anos, finalmente voltou ao seu habitat natural e, a partir de agora, passará por um processo de adaptação até que a espécie possa ser reintroduzida, de forma definitiva, na mata atlântica alagoana.

A espera durou mais de quatro décadas até que tudo fosse cuidadosamente preparado para recebê-la. Foi criado o Plano de Ação Estadual do Mutum-de-alagoas (PAE) e diversas instituições, entidades e empresas se envolveram no programa que tinha o objetivo de trazer de volta a espécie para a sua casa de origem. Tal trabalho coletivo envolve o Ministério Público Estadual de Alagoas (MPE/AL), o Instituto para Preservação da Mata Atlântica (IPMA), o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA), o Instituto SOS Caatinga, a Usina Utinga Leão, o Batalhão de Polícia Ambiental (BPA), Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), a Federação das Indústrias do Estado do Alagoas, o SindAçúcar e a empresa Lúcio Moura Arquitetura e Conceito.

Um dos principais atores desse processo, o Ministério Público tomou conhecimento do risco de extinção do Mutum há 19 anos e, desde então, acompanha o que vem sendo feito para que a ave não desapareça, de forma definitiva, da natureza. “Foi o IPMA que nos procurou e falou sobre essa espécie. A partir daí, criamos um grupo de trabalho para acompanhar os animais que vinham sendo criados em cativeiro no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Lá, inclusive, eles já estavam se reproduzindo. Atualmente, existem pouco mais de 200 indivíduos nesses viveiros, o que já nos dá um alívio de que o cruzamento deu certo. No entanto, não podemos já trazê-los de volta. Antes disso, é necessária uma série de ações para garantir a proteção dos bichos”, explicou o promotor de Justiça Alberto Fonseca, do Núcleo de Meio Ambiente do MPE/AL.

Segundo o promotor, essas ações fazem parte do PAE e começaram a ser realizadas já há algum tempo. “Conservação do habitat do animal, fiscalização dos órgãos de controle para evitar mais desmatamento e a caça e um forte trabalho de educação ambiental no entorno da região de mata atlântica fazem parte das estratégias montadas. E só depois da execução de todas elas é que pudemos ir buscar os animais em Minas Gerais”, detalhou Alberto Fonseca.

E a ida do MPE/AL até Contagem (MG) só aconteceu porque o projeto de reintrodução foi inserido dentro do Planejamento Estratégico do Ministério Público por determinação do procurador-geral de justiça, Alfredo Gaspar de Mendonça Neto, que é um entusiasta do PAE.

Coordenadora da Assessoria de Planejamento Estratégico (Asplage) do MPE/AL, a promotora Stela Cavalcante também comemorou o resultado do projeto. “Estudos mostram que o Mutum já foi considerado uma das cinco aves mais raras do mundo. Hoje, é uma das duas espécies de aves já extintas da natureza, ao lado de outros oito animais. Alagoas está dando exemplo para o Brasil e para o mundo e é claro que o Ministério Público, que também tem atribuição para cuidar do meio ambiente, estaria presente nesse processo. É um orgulho para nós vivemos esse momento, fruto de uma ação pensada e discutida com o nosso Escritório de Projetos. Tudo foi elaborado com muito cuidado e dedicação”, comentou ela.

O viveiro

O casal de mutuns que chegou a Alagoas veio do CRAX – Sociedade de Pesquisa de Fauna Silvestre, criatório localizado no município de Contagem, em Minas Gerais. Lá, os ambientalistas Roberto Azeredo e James Gomes Pitt Simpson adotaram todos os procedimentos necessários para a perpetuação da espécie.

“Recebemos 22 exemplares do Pedro Nardelli, que foi a primeira pessoa que se dedicou a essa causa, ainda na década de 70. Decidimos que o ajudaríamos nessa missão de não permitir a extinção da espécie e, aos poucos, colocamos os animais para reproduzir. Hoje temos aproximadamente 230 indivíduos e a maioria deles tem boa genética, ou seja, podem continuar procriando. Estamos felizes porque, finalmente, esses animais, depois de tanto tempo longe de casa, vão voltar para o lugar de onde nunca deveriam ter saído. Que Alagoas os receba com o carinho merecido”, disse Azeredo.

“Jamais poderia deixar de participar desse momento histórico. Essa é a primeira vez no Brasil que um animal completamente extinto da natureza está voltando para o seu habitat natural. Meu sentimento hoje é de dever cumprido”, comentou Pedro Nardelli, ambientalista que, no final da década de 70, organizou uma expedição e passou dois meses na mata atlântica de Alagoas tentando resgatar os últimos animais da espécie que ainda existiam.

E o casal que será apresentado nesta sexta-feira está no viveiro construído graças a assinatura de um termo de ajustamento de conduta celebrado entre o Ministério Público Estadual de Alagoas e a Construtura Pratagy. A compensação ambiental firmada no TAC foi justamente para a construção do espaço que receberia as aves, cujo projeto foi feito pelo arquiteto Lúcio Moura.

“Trazer o Mutum-de-alagoas de volta à nossa terra é a realização de um sonho conjunto. Hoje, apenas um casal chegou, mas nossa expectativa é que, até o ano que vem, mais alguns exemplares venham para cá. Até lá, continuaremos trabalhando para que todas as fases da reintrodução possam ser obedecidas de forma criteriosa. São etapas técnicas necessárias para que tudo dê certo na hora que tivermos que soltar os animais na mata. Como uma das maiores preocupações é com o fim da cultura da caça na região, o trabalho de educação ambiental será importantíssimo nesse período, fazendo com que os calçadores entendam que a ave não pode ser morta porque ela não existe mais na condição de livre no Brasil”, detalhou o presidente do IPMA, Fernando Pinto.

A inauguração do viveiro é mais uma ação em comemoração aos 200 anos de Alagoas e vai contar com representantes de todas as instituições que compõem o PAE, dentre outras autoridades. E o estado já garantiu que um decreto governamental vai tornar o Mutum a ave símbolo de Alagoas.

Ascom – 22/09/2017

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